Reflexão Pessoal da Autora de Menina-Mulher
- celestemcaraujo
- 9 de fev.
- 2 min de leitura
Escrever "Menina-Mulher" foi, sem dúvida, a viagem mais difícil e, paradoxalmente, a mais libertadora da minha vida. Olhando para trás, para cada palavra que deixei escorrer para o papel, consigo sentir o peso e a leveza de cada memória.
Foi doloroso. Doloroso revisitar aqueles momentos, aqueles cheiros, aquelas sensações que, durante tantos anos, ficaram trancadas algures num canto escuro da minha mente. Havia dias em que as lágrimas embaçavam a tela, e as mãos tremiam, recusando-se a transcrever a crueza de certas experiências.
Tive de reviver a vergonha do incidente da vizinha, o terror silencioso na casa da amiga, a desilusão avassaladora com aqueles em quem confiei. Cada trauma, cada lágrima não derramada na altura, cada pergunta "porquê eu?" que ecoava na minha cabeça, voltou com uma intensidade avassaladora.
Havia momentos em que pensava: "Será que devia mexer nisto? Não seria melhor simplesmente ignorar que elas existiram?"
O medo de sentir aquela dor de novo, de me confrontar com a fragilidade da "menina" que fui, era paralisante.
Mas, ao mesmo tempo, foi um alívio imenso. Uma sensação de tirar um peso gigantesco dos ombros, um fardo que carreguei em silêncio por tempo demais.
Cada frase escrita era como um pequeno sopro, um suspiro profundo de libertação.
Pela primeira vez, não estava sozinha com os meus segredos e as minhas verdades.
O diário, que foi o meu confidente silencioso na infância, ganhou uma nova dimensão. Agora, era o mundo que me lia, e eu não sentia mais a necessidade de me esconder atrás do roupeiro ou de fazer de conta que dormia para evitar a realidade.
Foi um processo terapêutico profundo, como o meu psicólogo me havia sugerido.
Ao dar forma às minhas memórias, pude olhá-las de fora, compreendê-las não como falhas da "menina", mas como as provações que forjaram a "mulher" que sou hoje.
Percebi a minha incrível "capacidade de superação", a força que nasceu das minhas más experiências e do suporte familiar que, apesar de tudo, sempre tive.
Este livro é a minha forma de "assumir e aceitar" o meu passado para poder viver em pleno o meu presente.
Espero que, ao partilhar esta parte da minha história, possa dar voz a outros que, talvez, se sintam sozinhos com os seus próprios traumas.
Se uma única pessoa se sentir menos isolada, mais corajosa, ou encontrar uma gota de esperança nas minhas palavras, então toda a dor valeu a pena.
Foi um grito silencioso que, finalmente, se tornou um eco de resiliência. E, por isso, sinto um profundo alívio e gratidão.
Obrigada por lerem Menina-Mulher!
Celeste Araújo






Comentários